segunda-feira, 4 de agosto de 2008

O primeiro fruto


"O primeiro fruto do amor é a meditação sobre Deus. Os pensamentos daquele que ama sempre voltam ao objeto de sua afeição. Aquele que ama a Deus experimenta o enlevo e o arrebatamento da contemplação de Deus. "Quando acordo, ainda estou contigo" (Salmo 139.18, ARC). Os pensamentos são como viajantes da mente. Os pensamentos de Davi se mantinham no cominho do céu. "Ainda estou contigo". Deus é o tesouro, e onde está o tesouro, ali está o coração. Podemos, assim, testar nosso amor por Deus. A que nossos pensamentos se voltam com maior freqüência? Podemos dizer que somos arrebatados de prazer quando pensamos em Deus? Nossos pensamentos têm asas? Voam para o alto? Contemplamos Cristo e a glória?[...]. Um pecador empurra Deus para fora de sua mente com outros pensamentos. Só pensa em Deus com pavor, como o prisioneiro pensa no juiz. "(Thomas Watson, All Things for Good, p.74, 1986).
Qual tem sido o primeiro fruto em nosso coração? Penso que existe uma realidade sutil que nos envolve hoje sem percebermos. Para Watson, se você fosse um cristão, então sua mente se ocuparia com a meditação em Deus e se você fosse um pagão, não ousaria pensar em Deus, pois a visão e sentimento quanto a ele seria a de um juiz que te puniria.
Nosso problema hoje é que conseguimos pensar em Deus, sem tê-lo como o primeiro fruto de nossas afeições, sem temê-lo como juiz. As pessoas em nossa geração não olham para Deus como alguém que irá condena-las, temos nossas igrejas cheias de pessoas que pensam em Deus como alguém que irá abençoá-las, que deve ser buscado para suprir suas necessidades, mesmo que ele não seja o objeto primeiro de nossa afeição.
Como isso pode ser possível? Como chegamos a essa realidade? Como podemos achar que, mesmo que nosso coração não se deleite em Deus, podemos nos aproximar dele sem temor, pois ele existe para nos socorrer e abençoar? Onde encaixamos histórias como a de Ananias e Safira hoje?
A graça não exclui a importância de nosso contínuo quebrantamento e arrependimento. A graça coloca no nosso coração o desejo de termos o Senhor como nossa primícia e nossa afeição a ele como o tesouro maior de nossa vida.

Ricardo Costa

terça-feira, 29 de julho de 2008

O Evangelho da Graça e a Graça do Evangelho


Nesses últimos dias tenho pensado bastante sobre essa questão da graça. Mais propriamente na questão do "Evangelho da Graça" e de como o mesmo tem sido visto, entendido, ensinado e acima de tudo vivido hoje.

Primeiro, tenho percebido que, de modo sutil, tem havido uma segregação entre o que a Bíblia nos apresenta sobre a graça. Por um lado, olha-se e enfatiza-se a realidade da graça como ação salvadora de Deus e, a partir dai, é dada a ênfase de que nós seres humanos não podemos fazer nada em favor de nossa salvação. Assim, o Evangelho da "graça" é a boa notícia de que Deus nos ama, como somos e que ele quer se relacionar conosco e veio ao nosso encontro através da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Por outro lado, esquece-se de que essa graça que nos é estendida em Cristo Jesus para a nossa salvação, levá-nos para uma nova dimensão de vida. Um novo conjunto de valores e uma nova agenda de compromissos.

Aqui é que está o problema, ou a segregação. Somos rápidos para aceitar o fato de que a graça de Deus nos é oferecida para a nossa salvação, mas não temos levado em consideração que essa "salvação" implica em passar a viver nossa vida comprometidos com um novo Reino (governo) que tem suas novas regras (dinâmica de vida) que devemos observar e desejar.

Em uma linguagem mais clássica ou teológica o que estou colocando aqui seria chamado de redenção e santificação. Somos abertos para reconhecer a necessidade de nossa redenção, mas lerdos para reconhecer que essa redenção implica em nos conduzir a uma vida de santificação. O engraçado é que, na prática, o que tenho percebido é que a mensagem da graça, que precisamos enfatizar é para atrair pecadores, que estão mortos em seus delitos e pecados, mas a mesma tem sido usada por cristãos, pessoas que, em tese, já foram redimidas de seus delitos e pecados, para justificar uma vida marcada por valores do presente século.

Talvez essa tendência deva-se ao fato de que por muito tempo pessoas que nasceram e cresceram dentro do universo religioso (igreja) tenham se sentido como escravas e cheias de medo e agiam de maneira diferenciada não por convicção ou compromisso, mas por receio de serem lançadas no "fogo do inferno".

O problema nisso é que as pessoas que tem um contato com o Evangelho da Graça e que são atraídas pela mensagem de perdão e amor de Deus e que vem fazer parte de uma comunidade cristã, deveriam encontrar um ambiente marcado pela "graça do Evangelho", mas o que encontram é um grupo de pessoas, que se chamam cristãos, mas que assumem posturas "sem-graça", como as mesmas posturas que essas pessoas novas na fé viam e viviam em suas vidas antes de se renderem ao Evangelho da graça.

Uma segunda percepção referente a graça é que a idéia que se tem da mesma é que ela se refere a questões negativas e não positivas de nossa vida. Ou seja, se uma pessoa errar ou pecar, então, ela considera-se carente e necessitada da graça de Deus. Mas, não se enfatiza o fato de que a graça é a operação de Deus para nos manter de pé, firmes e animados na caminhada do discipulado cristão.

O texto de Tito 2.11-13, nos apresenta a operação da graça nos três tempos relacionados a redenção: passado, presente e futuro. Quanto ao passado o texto diz que a graça se "manifestou salvadora a todos os homens", ou seja, a salvação em Cristo Jesus é oferecida como a mensagem de reconciliação de Deus a toda a humanidade. No presente, "ela nos ensina a renunciar à impiedade e às paixões mundanas e a viver de maneira sensata, justa e piedosamente nesta era presente"; ou seja, a graça opera em minha vida para que eu possa ter uma nova postura no mundo hoje.

A questão é que olhamos muito para o conceito "graça" referente ao que necessitamos se falhamos, mas não nos damos conta de que é ela quem opera em nosso favor para que vivamos em novidade de vida. Paulo diz que a graça nos educa para uma nova maneira de viver aqui e agora. Isso tem a ver com a consciência de que já somos cidadãos de um novo Reino, que tem novos padrões e que nos alegramos em viver a partir desses novos padrões.

Referente ao futuro a graça nos anima a aguardar a vinda plena do nosso Rei que trará a plenitude desse Reino em que já estamos vivendo de modo significativo.

Uma terceira percepção é quanto ao equivoco de que se estamos a mercê da graça, então, não temos nada a fazer. Dallas Willard tem enfatizado que a graça é contrária ao mérito e não ao esforço. A relação e dinâmica da graça em nossa vida implica em posturas e decisões que vamos tomar referentes ao nosso crescimento a estatura de Jesus Cristo.

Se queremos levar a sério o que Deus tem feito em nossa vida, em Cristo, então, precisamos considerar a responsabilidade que temos de responder as interações da graça de Deus em nossa vida. Isso não tem nada a ver com trabalharmos pela nossa salvação, no sentido de achar que somos nós os responsáveis por ela, e sim com o reconhecimento de que se Deus tem operado, precisamos nos unir a ele naquilo que ele tem feito em nossa vida.

Minha conclusão, tanto a nível de observação, quanto a nível de experiência pessoal, é que a maneira equivocada que temos entendido o Evangelho da Graça nos leva a viver de modo distorcido a graça do Evangelho. O resultado disso é que temos igrejas que estão crescendo, vemos um aumento de frequentadores em nossos cultos e reuniões, mas vemos pouca mudança de atitude e postura frente aos acontecimentos do nosso dia a dia.

Que Deus nos dê mediante o Evangelho da Graça a graça de viver o Evangelho!

Ricardo Costa

quarta-feira, 9 de julho de 2008

A Lei da Delegação do Poder: Deus nos dá tudo o que necessitamos em uma semeadura.


A Segunda Carta de Pedro enfatiza como Deus delega poder a seu povo. Como todos os bons líderes, Deus nos equipa como todos os recursos de que necessitamos para fazermos aquilo que ele nos chamou a fazer. Pedro nos fala que Deus garante que teremos "todas as coisas que conduzem a vida e à piedade"(2Pedro 1.3). O poder de Deus nos garante que teremos sua natureza divina ao permanecermos firmes em suas promessas (2Pedro 1.4). Nós estaremos cooperando com ele quando buscarmos nosso aperfeiçoamento pessoal. Nós exercitaremos a natureza divina em nós ao sermos diligentes na busca da santidade. Nós iremos acrescentar virtudes à nossa fé, depois o conhecimento, auto controle, perseverança, santidade, a bondade entre irmãos e, finalmente, o amor. Depois que nós tivermos passado por toda essa seqüência do desenvolvimento do caráter, nós teremos a natureza divina amadurecida em nós (2Pedro 1.2-8).
Jesus disse que o processo de amadurecimento em nós se assemelha a uma semente (Mateus 13.31-32). A semente é plantada e, embora tudo esteja ali, ela é muito pequena. À medida que cresce, ela se torna mais visível e útil. As sementes são completas, mas não estão desenvolvidas.
Nesse mesmo sentido, Deus tem lançado a todos nós neste mundo como sementes, mas esse investimento precisa de tempo e crescimento para que se torne visível aos outros.

John Maxwell

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Um Ministério Centrado no Evangelho


Um dos maiores desafios que temos como pastores e líderes no presente século é a fidelidade a pregação do Evangelho. A contínua pressão gerada pela compreensão de sucesso como crescimento numérico da igreja e a influência da "espiritualidade secular", que foca e centraliza o bem estar das pessoas, tem levado muitas igrejas a perderem o centro do Evangelho.

Em 2Timóteo 4.1-5 o apóstolo Paulo faz uma advertência de que chegaríamos a lidar com essa questão do "evangelho da auto-ajuda". E que diante desse contexto deveríamos manter nosso ministério centrado no Evangelho.

O que significa ter um ministério centrado no Evangelho? O que temos pregado é o Evangelho? O que é o Evangelho? Nas palavras do Dr. Tim Keller, pastor da Redeemer Presbyterian Church, o Evangelho é: "Eu sou aceito através de Cristo e então obedeço". Todas as demais Religiões propõe como mensagem: "Obedeça e então será aceito".

Isso revela o fato de que o coração do ser humano está profundamente contaminado pelo princípio da religião que nos leva a uma continua busca de "alto-salvação", como resultado de nossa morte espiritual. E mesmo depois que aceitamos a Cristo (ou dizemos que o aceitamos) sofremos com o impulso de retornar a depender da "auto-salvação".

Citando mais uma vez o desenvolvimento de uma reflexão de Tim Keller, nós devemos comunicar o Evangelho claramente. Nem através do legalismo e nem através do liberalismo. Legalismo/moralista é verdade sem a graça (portanto não é verdade real); relativismo/liberal é graça sem verdade (portanto não é graça real). Optar por um ou por outro irá fazer com que nosso ministério falhe, pois perderemos o poder que transforma vidas.

No texto de Atos 15.1-35 nós nos deparamos com uma situação histórica que envolveu a igreja no primeiro século e que pode nos ajudar a entender o que é o Evangelho que temos que pregar.

A questão é que Paulo e Barnabé, que estavam envolvidos com a missão de pregar o Evangelho aos gentios, são surpreendidos por um grupo de pessoas que vieram de Jerusalém para Antioquia e começaram a ensinar que os gentios convertidos, para garantir sua salvação, deveriam assumir a cultura judaica se circuncidando e guardando a Lei de Moisés.

O resultado dessa situação é que Paulo e Barnabé confrontaram esse ensino e a igreja de Antioquia os enviou a Jerusalém com outros irmãos para tratarem dessa questão. Em meio a toda a discussão e análise, tanto Pedro quanto Tiago, se posicionaram contrários ao legalismo que os membros do partido dos fariseus, que se converteram e estavam na igreja, queriam impor sobre os gentios.

Então, por um lado, o Evangelho que temos que pregar é sobre o que Deus fez em Jesus Cristo para nos perdoar e aceitar. Não é sobre os esforços pessoais que temos que fazer para garantir nossa aceitação por Deus.

Quando nosso enfoque está no que as pessoas precisam fazer o máximo que conseguimos é uma suposta reforma moral. Podemos levar as pessoas a se comportarem dessa ou daquela maneira, mas isso não significa que houve mudança de coração, transformação de vida. As pessoas, mediante o legalismo, podem assimilar comportamentos, mas continuarão se sentindo angustiadas e precionadas pelo medo, pois no fundo do coração não houve mudança, não experimentaram, pelo poder do Espírito Santo, o verdadeiro amor que lança fora todo medo (1João 4.18).

Por outro lado, uma leitura desatenta de Atos 15 pode nos levar a achar que o Evangelho é, portanto, a experiência com uma realidade que nos deixa bem com nossa própria vida e que estamos com Deus devido ao seu amor por nós, e isso não trará nenhuma implicação comportamental para nossa existência. No entanto, se obeservamos o texto com a devida atenção veremos que essa constatação não é endossada.

Primeiro, mediante o discurso de Pedro fica claro que Deus operou através do Espírito Santo uma mudança na vida dos gentios, como operara na vida dos judeus. Que a graça de Deus em Jesus trouxe mudança para o coração de todos, coisa que o legalismo não pode fazer (Atos 15.7-11).

Segundo, o discurso de Tiago reforça o fato de que Deus operou na mudança de vida dos gentios, assim como operou na mudança de vida dos judeus, e isso implicaria em considerarem a mudança em determinadas práticas de suas vidas, por terem se convertido (Atos 15.13-21).

Terceiro, no verso 12 temos o testemunho de Paulo e Barnabé a respeito dos sinais e maravilhas que Deus havia operado entre os gentios por intermédio deles. Se lançarmos nossos olhos para o Novo Testamento poderemos encontrar alguns exemplos do que Paulo e Barnabé se referiam aqui. Textos como Atos 19.11-20; Romanos 15.17-20; 1Coríntios 6.9-11, são alguns que demonstram como Deus operou poderosas mudanças na vida das pessoas.

Concluímos com essas considerações que o Evangelho é o poder de Deus que gera uma nova vida em todos aqueles que ouvindo se abrem a ele. Esse poder é composto pelo equilíbrio entre a graça e a verdade.

Se estamos atraindo pessoas para as nossas igrejas com a pregação de qualquer coisa menos que o Evangelho, que confronta a auto-suficiência humana, por um lado, e a licenciosidade liberal, por outro lado, não estamos fazendo seguidores de Jesus Cristo.

O Evangelho cativa as pessoas no estado que se encontram, demonstra a insuficiência humana e torna o grande amor de Deus ressaltado, levando as pessoas a dependerem desse amor e acolhidas por ele em Jesus Cristo, desejarem obedecer ao Senhor, buscando um novo estilo de vida.

Diante de tamanha demanda quem é que pode se sentir suficiente para essa tarefa? Eu não! Mas, como o apóstolo Paulo afirmamos que "temos esse tesouro em vasos de barro" (2Coríntios 4.7). Jesus, o supremo evangelista e pastor é aquele que edifica a sua igreja de modo que as portas do inferno não podem prevalecer contra ela. Ele é quem nos envia a todas as nações para fazermos novos seguidores para ele.

Uma vez que Jesus vai na frente temos toda a esperança do mundo!

Ricardo Costa

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Reflexão Missional


Tenho tentado colocar aqui a letra de uma música do Pe Zezinho que expressa uma poderosa realidade missional. Na letra ele descreve o fato de que cristãos, muitas vezes, por um pouco de pão e vinho, negam sua fé e outros por não querer dividir o seu pão e seu vinho, abrem mão de valores do Reino de Deus. Mas, Deus, por um pouco de pão e um pouquinho de vinho se fez refeição e tornou-se o Caminho. Todos os dias de nossa vida estamos diante dessas três alternativas. Como disse Jesus, aquele que quer guardar a sua vida vai perdê-la e aquele que a perder por ele e pelo Evangelho irá ganha-la. As coisas no Reino de Deus são assim mesmo, tudo de cabeça para baixo.

Ricardo Costa

segunda-feira, 2 de junho de 2008

A importância de uma equipe no processo de plantação de igrejas


A experiência tem demonstrado que na tarefa de se plantar uma nova igreja alguns requisitos são indispensáveis. Um deles é ter um plantador adequado e devidamente treinado, equipado e mentoreado.

Outro requisito indispensável é o estabelecimento de uma equipe que se envolva com o processo de plantação, a qual em alguns casos é chamada de “grupo base”. Quero desenvolver nesse texto alguns pensamentos relacionados à importância de termos uma equipe e de como podemos trabalhar para formá-la e mantê-la.

  1. A importância de uma equipe.

Uma equipe faz-se necessário no processo de plantação de uma nova igreja por vários motivos. Um plantador de igreja deveria entender o seu chamado não como um “paladino da justiça”, alguém que tem uma responsabilidade de fazer tudo sozinho, mas como um técnico de futebol que tem como responsabilidade primaria ajuntar um grupo de pessoas e equipá-los para juntos plantarem uma nova igreja.

Em Mateus 9.35-38, Jesus ao se deparar com uma grande multidão que precisava ser servida e abençoada com o Reino de Deus instruiu seus discípulos que orassem por mais trabalhadores. Ou seja, havia a necessidade de uma equipe para realizar junto o trabalho. Em Mateus 10.1 somos informados de que Jesus selecionou 12 de seus seguidores e lhes conferiu autoridade para realizarem as obras do Reino como ele vinha fazendo.

Uma equipe é importante no processo de se plantar uma igreja porque através dela, entre outras coisas, o plantador pode:

· Multiplicar o ministério. Quando se começa o processo da plantação de uma nova igreja há muitas coisas que precisam ser feitas e geralmente se estamos sozinhas todas terão que serem feitas por nós. Desde contatar pessoas até a montagem do ambiente para a reunião são coisas que podem estar sobre os ombros do plantador se o mesmo estiver sozinho. Envolver-se no processo de plantação tendo uma equipe ao nosso lado, logo cedo, nos liberará para concentrar nossa atenção em pontos mais específicos do nosso trabalho como o evangelismo pessoal e a pregação, enquanto outros membros da equipe podem cuidar de outros detalhes e outras frentes do ministério. Veja, por exemplo, em Atos 18.1-17 nós encontramos a narrativa da plantação da igreja de Corinto. Tenho visto muitas vezes com base nesse texto o argumento de que Paulo era um “fazedor de tendas”, querendo-se dizer que o apóstolo Paulo era alguém que tinha um ministério “bi-vocacional”, fazia tendas para levantar seu sustento e pregava o Evangelho. No entanto, tal argumentação é equivocada diante do que o texto nos apresenta. Na verdade o que o texto nos mostra é que Paulo tinha uma equipe que lhe dava condições de ser liberado para se concentrar em uma esfera mais específica de seu ministério. No verso 3 lemos que Paulo ficou morando com Priscila e Áquila e trabalhando com eles por terem a mesma profissão e no verso 4 somos informados de que “todos os sábados ele debatia na sinagoga, e convencia judeus e gregos”. Mas observemos o verso 5: “Depois que Silas e Timóteo chegaram da Macedônia, Paulo se dedicou exclusivamente à pregação, testemunhando aos judeus que Jesus era o Cristo”. Ou seja, graças a chegada de sua equipe, Paulo pode se dedicar exclusivamente a pregação do Evangelho.

· Mentorear outros. O trabalho em equipe também nos dá a oportunidade de logo de início termos pessoas que estaremos mentoreando no processo da liderança. Paulo diz a Timóteo que aquilo que ele ouvira sendo ensinado por Paulo na presença de muitas testemunhas ele, Timóteo, deveria ensinar a homens fiéis e idôneos que pudessem ensinar a outros (2Timóteo 2.2). Note que Paulo tinha um processo de mentoria com Timóteo, que fazia parte de sua equipe, e o orienta a encontrar outros que também pudessem fazer parte da equipe de Timóteo para ser mentoreado por ele logo cedo. Uma das necessidades que temos quando o processo de plantação de uma igreja vai se desenvolvendo é de líderes treinados e capacitados e uma das melhores formas de termos esses líderes é partir para o processo desde o início com uma equipe onde teremos pessoas que estarão debaixo de nossa mentoria.

· Maximizar recursos. Quando temos uma equipe outra vantagem que encontraremos é a maximização de recursos. Recursos de tempo, dinheiro, dons e talentos, são maximizados no processo de plantação quando não estamos sozinhos. Um grupo de pessoas que se dispõe ao envolvimento na plantação de uma nova igreja serão pessoas que investiram de seu tempo e dinheiro no projeto, pelo menos. Uma maneira de saber se alguém está mesmo envolvido com a visão que Deus tem compartilhado conosco é ver o quanto à pessoa está disposta a dar de seu tempo e de seu dinheiro. Pessoas que afirmam estarem comprometidas com algo, mas não investe tempo e dinheiro no que dizem estarem comprometidas é porque não estão comprometidas. No Evangelho de Lucas 8.1-3 somos informados de que Jesus tinha em sua equipe não apenas os 12 apóstolos, mas também mulheres que colaboravam com o sustento de seu ministério.

· Mobilização da Igreja. Lançar-se no processo da plantação de uma nova igreja com uma equipe ainda nos oferece a oportunidade de mobilizar as pessoas que estão em igrejas já estabelecidas, levando-as ao exercício de seus dons e talentos. Há muitas pessoas que estão encostadas em suas igrejas locais, sem desafios e sem serem aproveitadas em nada. Pessoas com seus talentos enterrados e seus dons atrofiados, porque não encontram espaço para se envolverem no ministério. Quando partimos para a plantação de uma nova igreja, munidos de uma equipe, a tendência é que haja uma grande mobilização na igreja mãe ou nas igrejas das quais nossos colaboradores saíram. Isso pode ocorrer tanto pelo fato de pessoas que estavam paradas em suas igrejas virem e se envolverem ativamente no processo da plantação da nova igreja, como também através do fato de que pessoas que estavam envolvidas em suas igrejas locais ao saírem para se engajarem na plantação de uma nova igreja, abrem espaço para que suas atividades e funções na igreja de origem sejam ocupadas por outros que estavam parados.

  1. Passos para a formação de uma equipe.

Vimos como é importante se ter uma equipe para o processo de plantação de uma nova igreja. Vejamos agora como podemos reunir essa equipe. O que devemos fazer para compor a equipe que nos auxiliará no processo de plantação de uma nova igreja?

· Orar. Nossa primeira ação deve ser a oração. Seguir a orientação que Jesus deu a seus seguidores frente a constatação de que a ceara é grande e de que é necessário mais trabalhadores para a colheita por isso devemos pedir ao Senhor da ceara que envie trabalhadores continua sendo essencial (Mateus 9.37-38). Por mais intenso e cansativo que possa ser o trabalho de plantar uma nova igreja, o mesmo será bem pior, se não tivermos ao nosso lado na equipe às pessoas certas. Portanto, a primeira ação na nossa tarefa de ajuntar uma equipe é orar e pedir ao Pai pelas pessoas que ele tem para essa tarefa.

· Listar nossas necessidades. Outra ação que devemos realizar ao procurar reunir ao nosso redor uma equipe para a plantação de uma nova igreja é listar quais necessidades teremos para a execução do processo. Estamos formando uma equipe de trabalho, então, devemos ter bem claro para nós mesmos quais as necessidades que precisaremos suprir. Que tipos de trabalho irão executar, que tipo de frentes e necessidades teremos que suprir. Isso precisa estar claro para nós, pois somente assim saberemos a quem buscar e também teremos condições de dizer com clareza para as pessoas o que esperamos de cada uma que irá integrar a equipe.

· Observar quem tem estado ao nosso redor. Devemos manter nossos olhos abertos e nossos ouvidos atentos. Devemos observar as pessoas com quem nos relacionamos e as pessoas que se aproximam de nós. Atentar para a reação de cada uma quando compartilhamos a nossa visão de plantar uma nova igreja e como elas se posicionam diante dos desafios e das necessidades que apresentamos a elas relacionadas a essa tarefa. Se estamos orando, precisamos crer que o Pai tem selecionado as pessoas que devem integrar a nossa equipe e estar atento para não deixar passar ao largo aqueles que o Senhor estiver trazendo para nós (Lucas 6.12-13).

· Convidar aqueles que entendemos terem as qualificações que necessitamos. Algo que me impressiona no ministério de Jesus é que ele é quem escolhe aqueles que deveriam segui-lo. Ele é quem seleciona entre seus discípulos aqueles que ele quer tornar apóstolo. Na verdade há situações onde as pessoas se oferecem para se tornarem suas seguidoras e Jesus as rejeita, ou então, estabelece o critério que deveria levar a pessoa a analisar sua decisão (Mateus 8.18-22). Outro detalhe interessante que podemos ver a partir do ministério de Jesus é que parece que ele sempre chama pessoas que estão ocupadas com alguma coisa. Por exemplo, quando chamou a Pedro, André, Tiago e João, os mesmos estavam terminando de lavar as redes depois de uma noite de trabalho, e Levi está sentado na coletoria, quando Jesus o chama. Esse mesmo padrão nós também encontramos presente no livro de Atos. É Barnabé quem vai chamar Paulo para fazer parte de sua equipe em Antioquia; é o Espírito Santo quem separa a Paulo e Barnabé para a missão de plantarem novas igrejas; é Paulo quem escolhe a Silas e a Timóteo para que fizessem parte de sua equipe de plantadores e é Timóteo que, conforme a instrução de Paulo, tem que escolher os homens fiéis e idôneos e os presbíteros e diáconos para a igreja em Éfeso. Não estou dizendo aqui que não devemos estar abertos a pessoas que venham a se voluntariar para cooperar com o trabalho, mas que não devemos ter essa prática como nosso critério. Ao contrário, devemos tomar a iniciativa de buscar e desafiar aqueles que Deus for aproximando de nós e nos mostrando serem úteis ao ministério.


  1. Ações para a manutenção da equipe.

Nossa última análise diz respeito a como manter unida e atuante a equipe que reunimos. Antes de compartilhar algumas idéias quanto a isso é importante lembrar que é natural que algumas pessoas venham deixar a equipe ao longo do processo por várias razões. Isso pode acontecer devido a uma mudança de residência, a uma mudança no momento de vida, a uma percepção de que o que está envolvido na missão não era bem o que se esperava e outras razões.

Contudo, é nosso dever trabalhar para que o grupo que reunimos possa se sentir motivado e disposto no processo da plantação, certos de que no Senhor nosso trabalho não é vão (1Coríntios 15.58).

Para tanto, como líderes da equipe, algumas ações que podemos tomar são:

· Despender tempo com as pessoas da equipe. Jesus chamou os 12 primeiro para estarem com ele e depois para os enviar a pregar (Marcos 3.14). Devemos estar ao lado dessas pessoas que vão compor nossa equipe. Levá-las conosco para ministrarem a outros, orar com elas, ouvi-las, afirmá-las e animá-las. Elas constituem o foco mais intimo de nosso ministério e pastorado. Se elas não se sentirem cuidadas e afirmadas por nós, logo desanimaram.

· Equipar as pessoas para o ministério. Lembre-se de que Efésios 4.11-12 diz que nossa principal tarefa é equipar os santos para o ministério. As pessoas que vierem compor a equipe irão se sentir intimidadas e desqualificadas diante dos desafios da plantação de uma nova igreja. Assim, devemos usar uma parte de nosso tempo para providenciar a elas treinamento e encorajamento em áreas específicas que forem sentindo necessidade como evangelismo pessoal, aconselhamento, exegese cultural e etc.

· Monitorar o progresso da equipe mês a mês e mentorear sua necessidades. Quando Jesus enviou seus discípulos, tanto os 12 quanto os 70, não os abandonou. Embora os mesmos estivessem envolvidos no ministério e estivessem realizando as obras do Reino de Deus, Jesus continuou orientando-os e ajudando-os a manterem-se focados no que era essencial (Lucas 10.1-24). As cartas de Paulo a Timóteo e Tito visavam prover aos mesmos o monitoramento e mentoreamento de que necessitavam no processo de serem pessoas envolvidas no ministério ao lado do apóstolo. Encontros sistemáticos de avaliação e orientação da equipe são imprescindíveis.

· Celebrar com a equipe cada vitória alcançada, sejam grandes ou pequenas. Devemos demonstrar a nossa gratidão a Deus e as pessoas da equipe a cada fase do processo que completamos e a cada alvo que alcançamos. A Bíblia diz que devemos dar honra a quem é de direito e que os membros que temos no corpo que são menos expressivos são aqueles que mais ornamentamos. Assim, devemos aprender a afirmar as pessoas que são nossas colaboradoras tanto publicamente como privadamente. Expressar nossa gratidão pela colaboração e empenho da equipe vai manter o ânimo da mesma e incentivá-la a dar mais de si para o Reino de Deus.

Conclusão.

No processo de plantação de uma nova igreja não está em pauta apenas nossa capacidade pessoal de desempenhar bem nossas funções e dons. Acima de tudo, a plantação de uma igreja é a expressão de uma nova comunidade de discípulos na terra que sinalizam que outro Rei está reinando.

Assim, precisamos começar o processo com a composição de uma equipe que esteja disposta a servir junta na tarefa de plantar essa nova igreja. Talvez a melhor maneira de começarmos um processo saudável de plantação de uma nova igreja é entendermos que como plantadores somos líderes-servos que devem ter a responsabilidade de prover a direção para a equipe, cria um ambiente saudável para os relacionamentos e pastorear a equipe provendo entusiasmo com o que Deus está fazendo.

É importante que um plantador entenda que se ele não servir bem sua equipe não será servido por ela. Espero que esse texto nos ajude nessa tarefa.

Ricardo Costa

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Dois lados de uma mesma moeda


Recebi esse texto por email. Ele trata de uma situação que acredito haverá de crescer cada vez mais no Brasil.

Entorpecimento

Na Revista Enfoque do mês de Abril/2008 foi publicada uma reportagem intitulada: "Uma igreja desviada". A reportagem comenta sobre um número que está crescendo assustadoramente no Brasil: o número de pessoas que deixam as igrejas evangélicas, os chamados coloquialmente "desviados da fé". Os números me impressionaram, pois, de acordo com a revista estima-se que existam entre 30 e 40 milhões de pessoas nestas condições. Se levarmos em conta que de acordo com o último censo a quantidade de evangélicos no Brasil era cerca de 27,2 milhões, as tais "ovelhas perdidas" já superaram este número. Mas o que me assusta realmente não são os números, mais os principais motivos que levam as pessoas a se afastarem das igrejas. Há os mais diversos, mas de acordo com a reportagem os principais são: Brigas internas, legalismos, decepções com a liderança, sensação de abandono, falsas profecias e promessas de prosperidade não concretizadas. (como diria um amigo meu: "bem coisa de crente!").

Sou sincero a dizer que me faltam palavras, tamanha a minha indignação, pois este é o reflexo das nossas intocadas igrejas brasileiras. Por isso o cristianismo caiu em descrédito para muitos, pois evangelismo não é mais falar de Jesus e a sua proposta de vida e amor, mas sim resolver charlatanizadamente os problemas das pessoas. As pessoas não vão mais a igreja para adorar e cultuar a Deus, para ter um momento de paz em comunhão com outros cristãos, mas transformam o lugar de adoração em um local onde Deus vai atender todos os seus caprichos, todos os seus mimos. Esta é a ilusão que plantam em suas cabeças. Evangelizar? Não é mais falar em "...quem perder essa vida, ganhá-la-á.." mas sim "você é filho de Deus e tem o direito a ter…, possuir, …exigir…" .

O óbvio acontece, a grande maioria não recebe o que queria, pois o cerne da mensagem cristã não são bênçãos ou curas, mas sim ser um instrumento de justiça em um mundo de injustiças. O verdadeiro poder do Evangelho não é o que ele pode fazer para mim, mas sim o que ele representa pra mim, quais valores absorverei durante a minha vida para ser um verdadeiro cristão, que anda na contramão do mundo, pois no mundo fala-se em consumismo, em egocentrismo, elitismo e em medida de valores por aquilo que um indivíduo possui, mas os valores cristãos falam em amor, justiça, coletividade, amor ao próximo, ser um abençoador e medir os valores das pessoas por aquilo que elas realmente são. Quando não recebem (óbvio, pois não buscaram o cerne do cristianismo ) revoltam-se, decepcionam-se com Deus e finalmente abandonam as igrejas. Serão pessoas que provavelmente desenvolverão um sentimento contrário tão grande, que não terão uma segunda chance.

Brigas internas, legalismo, sensação de abandono, falsas profecias? O que falar sobre isso? Aqueles que estão na liderança também se esqueceram do cerne do cristianismo? Onde estão os pastores que deveriam estar cuidando das pessoas? Ah! Já sei! Devem estar fazendo algum curso de marketing evangélico para fazer sua igreja "crescer" mais, pois a arrecadação está baixando, ou ainda criando estratégias políticas para que ele não seja derrubado, ou fazendo planos para tirar alguém do caminho, pois ele está atrapalhando.

O que quero dizer é que existe uma avalanche de pastores, bispos e apóstolos que se corromperam e não fazem mais o seu papel que é cuidar de pessoas (com as devidas exceções, pois tem muita gente séria ). Mas se este número é tão grande é porque algo está errado. O marketing evangélico não mostra estes números, eles propagam o outro de que os evangélicos estão "crescendo". Pergunto-me como esses líderes conseguem pregar um evangelho assim, se a Bíblia mostra algo totalmente contrário? Como os tais conseguem dormir ou se, em alguns lapsos de consciência eles não repesam os seus atos?

Tenho uma pergunta maior ainda. Como seria tratado Jesus em suas igrejas, pois de acordo com a teologia destes líderes, Jesus seria um fracassado, pensem: uma pessoa que no ápice do seu ministério não tinha casa fixa, vivia de cidade em cidade viajando por conta própria, a pé, na maioria das vezes dependendo da boa vontade das pessoas. Não tinha muito dinheiro, tanto que para pagar um imposto certa vez foi utilizada uma moeda saída da boca de um peixe. Não tinha amigos influentes, ao contrário era cercado de uma dúzia de pescadores ou pessoas comuns e mendigos, leprosos, prostitutas, doentes, pobres, cobradores de impostos, ou seja, a escória da sociedade em que ele vivia. Como tratariam Paulo, que vivia situação semelhante, tomando pancadas, sendo apedrejado, fugindo, apanhando, e que ele mesmo diz que aprendeu a viver com o pouco e ainda terminou os seus dias preso antes de ser assassinado. Eles não são aquilo que tais líderes chamam hoje de vitoriosos. Será que Jesus, Paulo ou outro número sem fim de discípulos de Jesus que tiveram vida semelhante seriam chamados de vitoriosos pelos Evangélicos do Século XXI?

Texto de Flavio (FHCA ®) publicado em Stay Freak.

Quando olho para um texto como esse a primeira lembrança que surge em minha mente é um texto em 2Timóteo 4.3-4: "Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; ao contrário, sentindo coceira nos ouvidos, juntarão mestres para si mesmos, segundo os seus próprios desejos. Eles se recusarão a dar ouvidos à verdade, voltando-se para os mitos".

Nesse texto encontramos duas questões, ou dois lados de uma mesma moeda. Por um lado temos os falsos mestres que ensinam mitos, mas do outro temos pessoas que estão a procura desses falsos mestres com seus mitos. Quando leio um texto como esse acima (do Flavio) sempre fico me perguntando se conseguimos enxergar isso. Se vemos que existe ai um sistema que se retro-alimenta o tempo todo.

Se por um lado, e isso é verdade, temos as pessoas que saem enganadas, feridas e cansadas de igreja cristãs e decepcionadas com líderes e falso ensino, por outro, temos o fato de que esses líderes existem e esse sistema está em voga devido ao fato dessas mesmas pessoas estarem a procura do que traga satisfação para seus pontos de vistas e ideais.

Como o apóstolo propõe a solução para essa situação? Ele diz: "Pregue a palavra, esteja preparado a tempo e fora de tempo, corrija, exorte com toda a paciência e doutrina". E, "Você porém, seja moderado em tudo, suporte os sofrimentos, faça a obra de um evangelista, cumpra plenamente o seu ministério. (2Timóteo 4.1,5).

A proposta do apóstolo para lidar com essa situação é, portanto, pregar o Evangelho! Sim, devemos continuar com dedicação, alegria e seriedade ensinando o Evangelho do Reino de Deus, pois o Evangelho é o poder de Deus para a salvação.

É verdade que as pessoas hoje em dia estão correndo cada vez mais atrás de realidades que possam fazer com que elas se sintam melhor, mas a igreja de Jesus Cristo é portadora de uma mensagem, que nem sempre faz as pessoas se sentirem com a vida melhor, mas sempre trará transformação a cada pessoa e a cada sociedade.

Ricardo Costa